domingo, 29 de maio de 2011

Palhaçada eleitoral geral

Ai, ai... adoro um bom período eleitoral, com os inerentes beijinhos, sorrisinhos, ataques pessoais e auto-vitimização, compras de votos dissimuladas, slogans recheados de um patriotismo despovoado, debates pálidos e desesperados entre pseudo-candidatos, comícios cheios de discursos vazios e repetidos e promessas, muitas promessas. Promessas quiméricas e inconcretizáveis neste país das maravilhas, soterrado pela dívida externa, em que habitamos.

Mas o pior, pior...é que são sempre os mesmos, sempre as mesmas caras, os mesmos discursos, as mesmas expressões, o mesmo teatro... não há renovação! Já não se aguenta ver sempre as mesmas alminhas, com as suas campanhas obscuras e hipócritas, beijando e sorrindo ao povo que roubaram, ou ajudaram a roubar, seguidos pelo seu séquito de lambe-botas e o povo, cego, aplaude!
Meus queridos, O REI VAI NÚ! Abram os olhinhos...

Ainda pondero em que rei votarei (que paradoxo monárquico-democrático tão áspero) mas pelo andar da carruagem (e continua, não vês?) ainda vou é conferir legitimidade ao partido dos animais. De todos, são quem defende a mais nobre causa.

Deixo-vos com este vídeo divertido sobre o estado divertido a que chegou o Estado Português
video

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Crónica - Rendez-vous

Quando ele entrou na carruagem, de imediato, reconheceu aquelas feições. Familiares, literalmente. Tinha um ar ainda mais pesado, ainda mais desgastado, ainda mais denso, impenetrável. Com efeito, não o via há já bastante tempo. A última vez tinha sido no Natal de 2002, ele tinha lhe levantado a mão e gritado para nunca mais lhe aparecer à frente... Assim o fez, mudando inclusivamente de cidade e afinal, é ele quem lhe aparece à frente. Mas ele não a viu. Ia concentrado nuns papéis quaisquer.

Mas seria possível? Encontrá-lo logo ali? Nesta altura? Quais as probabilidades?
Debatia-se nos seus pensamentos e memórias sem sequer pensar em agir e, quando deu por si, ele já tinha ido. Ainda apanhou as portas abertas, correu para a gare, agora já vazia, onde ecoou: Pai!!


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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crónica/ True Story - 6º

De repente, a minha vista detém-se num sr. acamado, junto à janela, numas águas furtadas, na Sampaio Rodrigues. O casebre onde vive, mais parece ter sido construído no terraço daquele mamarracho, mesmo ao lado do hotel Excelsior. Vejam bem, com a janela aberta com este frio. Bom, se não tivesse a janela aberta também não o teria avistado, mas coitado, estão 6º lá fora! Se calhar deixaram-no assim, a ver se morre de frio, coitado. Vive uma pessoa uma vida de sofrimento para acabar assim, ao frio, coitado!
Mas esperem... Eis que ele se levanta... Não, não esperem! ELA! Afinal é uma "ela"! E, no seu robe azul, sem dificuldade, vai até à varanda, apaga o cigarro, volta para dentro, fecha a janela e torna a meter-se na cama! Ai ai ai ai ai!

Bom, enfim, para quê viver se não corrermos alguns riscos?

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crónica - 16.30h - 17.15h

Deitou-se na chaise longue e desatou a soluçar. Grossas e copiosas lágrimas corriam, em fio, pelo seu rosto terminando no veludo verde escuro que forrava a poltrona. Aí, eram recolhidas por aquela esponja tão salgada quanto o Mar Morto, de tanto choro absorvido. Um silêncio inerte reinava, interrompido, apenas, a cada segundo, pelo tick-tack de um relógio branco na parede. Lá fora, um radioso e aconchegante sol de Maio, e o riso das crianças, ao longe, teimavam entrar pela janela. E soluçava, soluçava. Ouviu-se um telefone tocar, abafado, dentro da mala. Ouviu-se uma mensagem a chegar, abafada, dentro da mala. Por esta altura, o veludo verde mais lembrava a escuridão das paisagens de Goya tantas eram as manchas mais escuras de água salgada que jorravam daqueles olhos. Tomara que o tempo também escorresse àquela velocidade. Aqueles 45m. custam tanto a passar mas finalmente eram 17.15h. "Bom, então até para a semana!" - disse o psiquiatra.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Crónica - Carpe Diem

"Proibido Fumar" dizia o letreiro. Ignorando o sinal e a sua asma, acendeu um cigarro. Podia ser o seu último. De imediato, lhe ofereceram um whisky e, delicadamente, lhe pediram para apagar o cigarro. Delicadamente, respondeu que não. Mas aceitou o whisky...podia ser o seu último. Depois, ligou o laptop e, na ausência de headphones, partilhou o áudio do seu filme favorito com todos os presentes. Aborreceu-se e começou a desfolhar uma revista feminina, fazendo comentários "desagradáveis" alto e bom som. Quando se levantou para ir ao wc olhares aliviados cruzaram-se com olhares revirados "Homenzinho insuportável!", "É preciso mesmo não se ter respeito nenhum!".
A seguir, pediu um cozido à portuguesa, o seu prato de eleição. Não tinham, obviamente. Desculpando-se, tentaram seduzi-lo com uma sandes de carne assada "Olhe lá, que são muito apetitosas!", em vão. De repente, o chão estremeceu e, apavorado, largou a gritar. A seguir, o avião despenhou-se. . .

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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Crónica - Um egoísmo altruísta

A Maria chegou mais tarde. Ainda teve de fugir, estrategicamente, de um encontro "Aii o meu sobrinho está no hospital. Ligo-te depois". Nunca ligava. Mas todos tinham respondido ao meu SOS. Até o Afonso, que não se deixava ver há meses, se descolou dos relatórios e dos gémeos e apareceu. Os gémeos já tinham 2 anos e hoje ficaram com a avó. Ficaram com a avó mais de uma semana porque ele aceitou a missão de dogsitting, com os 4 cães da Guida, enquanto ela foi descobrir o namorado, em Paris, com outra.
O Afonso é daquelas pessoas que não conseguem dizer que não. É como eu. Adorava ser menos altruísta e conseguir dizer um redondo NÃO, quando não posso mais. Mas não consigo.

O assunto exigia seriedade e todos o entenderam pelo tom da minha voz, na convocatória. Por isso, todos compareceram. Reunidos, anunciei que ia abandonar toda a vida pessoal e profissional que havia, até então, construído, onde todos se incluíam, para de forma pseudo-definitiva e altamente altruísta me mudar, pseudo-definitivamente, para África. "Nigéria, mais concretamente".

"Endoideceste??", "Queres apanhar malária?", "Tu nem podes ver uma aranha!","E a tua carreira?", "Sim, não foste promovida há 3 meses??", "Para que achas que te querem lá?", "E o João?", "E a tua mãe??", "Com quem vou almoçar às quartas?"
Apesar de toda a "preocupação" dos meus amigos não me senti nem um pouco demovida nas minhas convicções. Precisavam lá de mim, e eu ia. Mas deixava cá tanta coisa...
Liguei para a instituição de voluntariado: "Desculpe, mas não consigo!". E não fui. Até hoje...


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Crónica - Saber bem, saber mal

Esfregava os degraus das escadas incessantemente. Esfregava com quantas forças tinha. Esfregava com quantas forças lhe restavam. Esfregava como se limpasse a sua própria alma.
"Oh mulher 'tou t'ouvir a esfregar essas escadas há mais de hora e meia! Tá sujo de quê que custe tanto a sair??" -
"Nada, nada. Só uns pingos de tinta das obras dos do 3ºA. Não têm cuidado com nada!"
"Ai mas 'tão a pintar o quarto de vermelho? Parece coisa sei lá de quê!"
Conhecia a vida de todos os inquilinos do prédio, como boa coscuvilheira que era. Ironicamente seria a coscuvilhice que a poria naqueles trabalhos.

Mas ali sabia-se tudo. O que se passava no 3ºB rapidamente passava para o 2ºB de onde escorria para o 1ºB e dali para a porteira. Esta encarregava-se de espalhar pelo resto do edifício. Fosse que o marido da do 4ºE tinha chegado bêbado, ontem "Que grande desplante!", fosse que a filha da do 1ºC andava com um "larápio" que passava "Ai esta juventude onde irá parar", fosse que a do 4ºB tinha sido despedida "Sabe-se lá porquê" "Mas coitadinha, isto está tão mal", fosse que a empregada da do 2ºA andava a roubar pratas e meias que "Isto já não se pode confiar em ninguém", fosse que a do 3ºD tinha um amante "E veja bem, 20 anos mais novo!"...Pelos corredores daquela escada tudo se sabia e comentava.

Mas a coscuvilhice que alimentava aquela porteira havia de a levar até à porta do 2ºE, havia de a levar a assistir àquela discussão, havia de a levar a tentar acalmar aquela exaltação, havia de a levar a relembrar um velho quadro, havia de a levar a partir do vaso da palmeira da entrada na cabeça daquele "cobarde", havia de salvar a vida àquela namorada, havia de matar aquele "ignóbil", havia de sujar, para sempre, aquelas escadas.
Esfregava os degraus incessantemente...tentando ocultar o inocultável, naquele prédio onde tudo se sabia e comentava...

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